SALA DE ESTUDOS
Um refúgio para si

Dentro de todos os seres, há uma fonte inesgotável de luz. Alguns a chamam Buda, Mestre Interno, Deus. Outros ainda, de Amor.

Todos possuem esta luz e não haveria necessidade alguma de buscá-la fora, tendo visto que é a nossa essência real mais profunda. Mas que seria esta Luz senão a própria consciência? A Luz é a Sabedoria e saber derivou-se de sabor. A consciência é o instrumento de experimentação do Universo Manifesto. Nossa consciência é o paladar da divindade experimentando o sabor da vida.

Tem sabedoria quem saboreia a existência, quem está pronto para correr o risco de experimentar. Necessário é aplicar abundante energia para decifrar os enigmas do existir. Esta energia é aplicada na atenção.

Quando entramos na vida material, nos foi dada a lanterna da atenção mental. A vida é como um grande salão mergulhado em trevas.

Vamos descobrindo o que há neste recinto movimentando a lanterna da atenção e para onde quer que a apontemos, revelamos um aspecto a mais de nossa vida objetiva e subjetiva, e assim podemos evitar o que produz sofrimento e trazer à Luz da consciência aquilo que nos serve para produzir paz, saúde e felicidade.

Estudando detidamente a própria vida poderemos passar para outro recinto, afinal muitas são as moradas na Eternidade.

Ninguém pode acender a luz por você, nem apagá-la, visto que mesmo a morte não tem poder algum sobre ela. Você está sozinho neste processo. Mesmo quando nos agrupamos para a prática da contemplação meditativa, somente você pode acender esta luz e direcioná-la para a investigação dos múltiplos fenômenos. Mesmo quando a meditação é conduzida por outra pessoa, o que está acontecendo dentro de você permanece sempre no campo da intimidade, do subjetivo, do que não pode ser compartilhado nem encerrado nas palavras.

Buddha, em seu último sermão, às portas da Eternidade, declarou aos seus amigos:

“Sejam ilhas de vocês mesmos; sejam refúgio para vocês mesmos. Não tomem ninguém como refúgio de vocês. Sigam estritamente a verdade (…) Aferrai-vos fortemente à Verdade e dela não se separem jamais. Sejam suas próprias luzes, não se deixem guiar pelos ritos ou por qualquer pessoa que se diga mestre. Só há um caminho – a Verdade. As palavras que ouvirem, vocês devem analisá-las detidamente para saber se são corretas. Não se enganem nem se deixem enganar um só momento.”

Estas foram as últimas palavras de Buddha. Não existe Salvação fora da Verdade. Ela é o caminho, ela é a vida. Verdade é o que está dado a ver. Aplique a luz da consciência com equanimidade e energia, e então tudo estará claro e límpido.

A verdade não pode ser declarada. Diante da pergunta: “o que é a Verdade?”, Cristo também silenciou, pois ela não pode ser dita.

A Verdade só pode ser experimentada, saboreada, efetivamente vista através de seus olhos espirituais.

Aplicai-vos com afinco nesta descoberta e a Verdade vos libertará.

Tomo refúgio na Verdade!

Tomo refúgio na Sabedoria!

Tomo refúgio no Amor!

Vida Plena!

Ananda Joy (Diógenes Mira)

Reinventando as relações

Ninguém é uma ilha. Definitivamente, se fôssemos ilhas, estaríamos unicamente centrados em nós mesmos. No entanto, até mesmo o pior egoísta se relaciona com o mundo exterior, pois ainda que pense apenas em si, ele espera que todos atendam suas expectativas e necessidades. O egoísta não quer ficar isolado, ele quer isolar o outro de suas próprias necessidades e colocar a todos sob a sombra de seu desejo cego e egocêntrico. Mesmo que alguém buscasse viver isolado em uma ilha, ainda assim estaria relacionando-se com o ambiente e consigo mesmo. Estamos constantemente em relação, gostemos disto ou não.

Se buscarmos a origem da palavra “relacionar” encontraremos o latim relatio, com o significado de “restauração” ou “ato de trazer de volta”. Seu sentido mais comum, que é o de estabelecer conexões com outras pessoas, vem do século XVIII. Esta mesma palavra latina traz também o sentido de carregar algo, de levar ou portar, onde o “re” indica a repetição.

Não é muito simples pensar neste sentido original aplicado em nossa contemporaneidade linguística. A palavra “relacionar” está intrinsecamente ligada ao estabelecimento de vínculos, de elos. Para considerar o sentido de “levar algo novamente” ou “portar algo novamente” teríamos que pensar neste termo como um indicativo de “posse”. Dessa forma, consideraríamos a ideia de que somos proprietários do outro, fazendo dele um objeto que carregamos conosco, como um pertence ou uma conquista. Neste caso, a palavra “relacionamento” seria um reforçar do patriarcado que é o desejo de possuir e controlar o outro, e assim, a grande maioria dos relacionamentos atuais estaria fazendo juz a este significado original, que nestes casos, infelizmente, continua fazendo todo sentido.

Viver uma relação indica a busca por uma comunicação; duas ou mais pessoas compartilhando um mesmo espaço, um mesmo momento, considerando suas necessidades em harmonia, como coletividade ou parceria, tendo em vista expressar seus sentimentos, pensamentos e suas diferentes maneiras de absorver e enxergar o mundo.

Inevitavelmente, quando penso nesta busca por comunicação, imediatamente recordo do famoso ato de “discutir a relação”, momento típico dentro da dinâmica dos relacionamentos. Alguns detestam, sofrem horrores com estes debates, fugindo dele como o diabo foge da cruz. Talvez sejam pessoas traumatizadas com discursos emotivos ou com medo da exposição de si e de suas limitações pelo outro. Outras adoram discutir a relação, considerando o diálogo como uma oportunidade de aprendizado e como auxílio para aprofundar a união. Conversando é possível descobrir uma saída para os conflitos e reinventar a relação.

E este é exatamente o tema de nosso estudo: o reinventar de nossas relações.

Dizemos que existe uma boa relação quando duas ou mais pessoas tratam-se bem, com respeito, cuidado e claro, estabelecem boa comunicação entre si, o que demanda saber falar e saber ouvir. Coragem para expor-se sem medo e receptividade amorosa para aceitar o outro. Uma comunicação que visa estabelecer parceria, o que significa que ambos estão olhando para uma mesma direção, possuem objetivos comuns, ou no mínimo respeitam os pontos de vista divergentes sem que a diversidade se transforme em uma guerra entre quatro paredes, dessas que a vizinhança toda testemunha e normalmente torce para acabar.

Existe a ideia de que dentro de um relacionamento alguém sempre terá que ceder ou perder em nome da harmonia na relação. Pergunto-lhe então: o conceito de perder ou ganhar não implica necessariamente em competição? Obviamente estamos condicionados dentro do modelo do sacrifício inevitável, onde algo precisa ser assassinado interiormente em favor da felicidade do outro.

Pergunto novamente: isto não resultaria em barganhas, chantagens e pechinchas emocionais desnecessárias? E, por fim, em cobranças cansativas de ambas as partes? Pode existir coisa mais chata e cansativa do que um credor emocional? Ou uma ação de despejo com direito a berros, choros e todo tipo de agressão verbal ou até mesmo física? É panelada, rolo de macarrão, palavrões nada rebuscados e roupas voando pela janela no festival do ridículo humano, num espetáculo onde às vezes somos platéia, noutras, personagens principais.

Dentro deste campo de acirrada batalha, nem que seja no grito, cada parte quer provar para a outra que tem razão, o que faz com acabem por perdê-la completamente, se é que em algum momento existia alguma razão para se perder ou ganhar, em primeiro lugar. Este é o tipo de embate que carece de lógica de qualquer espécie, sempre.

Surge então no ambiente das relações uma palavrinha monstrenga: “autoridade”, que é quando uma das partes sempre tem a razão. A própria origem etimológica da palavra, também do latim, significa “aquele que tem o poder”. A autoridade também deve ser considerada como um condicionamento coletivo, quando, por exemplo, certos valores morais aceitos por todos ditam as regras de conduta e das relações.

Mas observe que autoridade é diferente de liderança, que poderá brotar naturalmente, ou seja, quando se manifestam em uma pessoa (ou grupo de pessoas) dons inatos de comunicação e resolução de conflitos. O bom líder influi pelo exemplo, pelo carisma, pelo serviço prestado e pelo acolhimento das necessidades variadas dos indivíduos que compõem o grupo. Ele tem o desejo de compartilhar, de distribuir, de facilitar as relações. Se a liderança ganha o sentido de autoridade, isto se deve ao conhecimento, à experiência de vida, algo desta natureza, que seja reconhecido e valorizado naturalmente por todos.

O bom líder nunca faz prevalecer seu ponto de vista pela imposição, manipulação egoísta ou violência; no entanto, ainda assim devemos ser cuidadosos com este conceito, pois a autoridade implica muitas vezes numa entrega cega e no abandono da autonomia. Ideias preconceituosas podem definir um líder, por exemplo, pelo seu status social, financeiro, nível acadêmico, influência política, pelas opções sexuais e religiosas, ou até mesmo pela idade, e convenhamos: os arrogantes também envelhecem. Eis um tema vastíssimo, que demandaria longas horas para ser abordado amplamente, abarcando todos os pormenores sobre relacionamento, comunidade e sociedade, temas que estão intrinsecamente unidos.

Mas vamos ficar com o que pode de fato reinventar e transformar as relações. Voltando à origem etimológica, vimos que relacionar tem o sentido de “trazer de volta”. De fato, somos observados dentro das relações e atuamos a partir das respostas que obtemos do grupo ou da pessoa com quem nos relacionamos. Podemos então viver o autoconhecimento através do espelhamento. Assim o outro nos traz de volta a nós mesmos.

O outro diante de mim revela-me. Dentro das relações podemos vir a descobrir toda a nossa humana beleza, e todo o nosso emaranhado emocional inconsciente e mecânico. Vaidade, ciúmes, desespero, medo, arrogância, egoísmo, amizade, compreensão, acolhimento, confiança, coragem, ternura, altruísmo: tudo isto vem à tona quando estamos em relação.

Precisamos viver o encontro fora dos modelos prontos da “relação perfeita”. Se nos dedicarmos a evidenciar e a investigar nossa realidade sombria e luminosa dentro das relações, elas naturalmente se converterão em meditação. Não é possível sair da mecânica reprodução de atitudes absorvidas pela imitação, sem mergulhar profundo em si mesmo, para saber quem se é, antes de ter sido “feito” por “um outro”.

Fomos construídos pela linguagem, nossa personalidade é toda “palavreada”, feita de sons modulados pela respiração insuficiente, pelos signos implantados em nosso intelecto e pelas contrações musculares que moldam nosso caráter através das experiências de prazer, dor e sofrimento emocional. Cada trauma esculpiu nossa personalidade, e reproduzimos então as brigas e os chamegos definidos como o socialmente “normal”.

Briga de casal é tudo igual, pois é mera reprodução automática de um jeito de fazer convencionado, e isto não serve só para o quebra-pau dos relacionamentos desgastados pelo tempo, é exatamente igual com o namorico de portão. Então, se fomos construídos pela imitação gestual e comportamental e pela palavra falada e pensada, é pela conscientização corporal e pelo silêncio que nos desconstruímos. É jogando luz sobre os condicionamentos na serena contemplação de si, em tudo que se movimenta em nosso universo subjetivo e nas sensações corpóreas, que poderemos ver claramente revelado o conteúdo injetado em nós. A meditação nos coloca em relação direta com o nosso próprio Ser e possibilita a abertura à escuta do outro, que não é diferente de nós e busca a mesma felicidade e plenitude.

SENSIBILIDADE é a palavra chave de transformação de todas as relações, desde que signifique atenção e coração aplicados dentro do convívio com os demais. Quando dizemos que uma pessoa é insensível, que não tem coração, estamos dizendo que ela é surda aos sentimentos dos demais, que ela fere e machuca propositadamente.

Logo, saber ouvir, saber sentir junto, saber comunicar seu desejo e sua verdade mais profunda, saber aceitar a verdade e o desejo do outro, colocar-se disponível para solucionar os conflitos e servir com alegria ao bem maior é reinventar as relações a partir de um estado de consciência desperta que abraça e envolve e a ninguém exclui.

Esta sensibilidade é o néctar derramado desde o centro mais profundo de nosso Ser através da meditação.

Esta sensibilidade despertada pela meditação, a meu ver, é a única saída para a questão do relacionar-se. Pois esta sensibilidade nos impede de mentir, e a verdade é o solo fértil onde germinam, crescem, florescem e dão frutos os relacionamentos profundos e verdadeiros.

Em contrapartida, a mentira é o solo onde brota e cresce todo sofrimento e conflito. Onde existir conflito interno não existirá harmonia no convívio com os demais; onde existir atenção, paz e lucidez interior haverá o Amor que acolhe e liberta.

A Verdade remove conflitos.

O Amor é a resposta.

Vida Plena!

Ananda Joy (Diógenes Mira)

“Que um relacionamento não seja prisão; que não seja enfermaria nem muleta; mas que seja vida, crescimento. Que seja libertação e ajuda mútua, não fiscalização e condenação, a sentença pronunciada numa frase gélida ou num olhar acusador, ar de reprovação ou lamúria explicita”. (Lya Luft)

Fique longe da meditação

A meditação é um exercício espiritual, creio que o mais antigo que o homem tenha inventado. É possível que a meditação tenha surgido junto com a humanidade; ela é um instrumento simples e seguro de autoconhecimento, de revelação de quem essencialmente somos. Mas é possível que algumas pessoas não queiram realmente saber quem são, então para elas vai esta importante recomendação: Fique longe da meditação!

Fique longe da meditação, caso você não queira estar consciente de seu corpo. Talvez você descubra que não o aceita como é, que rejeita o prazer por medo, ou que a dor lhe aterroriza a alma. Talvez você não queira testemunhar a decadência. Talvez meditando você conclua que vai mesmo morrer e que nada pode ser feito para impedir isto.

Fique longe da meditação, pois ela pode lhe revelar toda a insatisfação que você experimenta em suas atividades, deixando claro que você fez as escolhas erradas e que amordaçou em si seus sonhos e sua vocação. Talvez você tenha se vendido barato em busca de aprovação familiar ou social, ou perceba que seu trabalho prospera na medida em que destrói vidas, ou descubra que não é definitivamente feliz em seu emprego, e que será custoso agora correr na direção dos seus sonhos, mesmo sabendo que, irremediavelmente, é o que deve ser feito.

Fique longe da meditação, ela poderá revelar sua insegurança básica de não se sentir amado, ou ainda lhe mostrar que sua sexualidade nunca foi uma comunhão amorosa, e sim uma masturbação a dois, cada parte isolada da outra e de si mesmo. Talvez você descubra que seu gozo não é um gozo, mas sim, um escapismo para afogar a angústia de levar uma vida sem sentido e sem afeto. Talvez lhe fique claro qual é o seu desejo mais profundo e, caso lhe tenham incutido a idéia de que ele é pecado, você terá de escolher entre vivê-lo ou mantê-lo de castigo no quartinho das frustrações. A meditação mostrará que a vida lhe cobrará os dons que foram semeados entre espinhos e pedregulhos.

Fique longe da meditação, caso você esteja identificado com seus hábitos, se você acredita que você é um amontoado de “quereres” e “manias fixas”. Se estiver convencido de que seus hábitos traduzem quem você é, afaste-se da meditação, porque ela irá transformar seu modo de ver e atuar no mundo, de entender a si próprio, e consequentemente, aos outros. E quando estas transformações começarem, talvez as pessoas próximas de você lhe estranhem e passem a lhe cobrar para voltar a ser o “você” de antigamente, aquela imagem mumificada que elas tinham sobre este tal “você”. Talvez você mesmo se estranhe, e se o medo do novo for maior do que o desejo de morrer para ressurgir, assim como a lagarta vira pupa e renasce como borboleta, é melhor afastar-se da arte de viver e de morrer em contemplação.

Fique longe da meditação: ela poderá mudar os itens do seu menu, lhe fazendo mais consciente do quê e o quanto você deve comer, de como você mantém boa vitalidade e energia, dormindo e se alimentando adequadamente, e talvez você ainda queira esbanjar um pouco mais de saúde nas guloseimas coloridas e artificialmente aromatizadas. Talvez para você seja importante encher a barriga até o pescoço só para esquecer que tem o peito vazio.  A meditação lhe mostrará como você some enquanto consome.

Esqueça a meditação, a não ser que exista disponibilidade para ouvir o coração, para finalmente olhar para aquela dor antiga, aquele vazio existencial agudo, que dói sem doer e arde sem queimar.  Mas é bom saber que, muitas vezes, na ânsia de ouvir o coração em suas dores, alguns teimem em buscar fora o que já está dentro, e disto surja a necessidade de correr em direção de gurus, sábios, santos e mestres, pela ânsia de preencher o buraco emocional do passado mal resolvido, o vazio que os pais deixaram, o vazio saudoso do uterino sonho de unidade, ou seja, o vazio por ter sido expulso do paraíso. A menos que se queira beber do cálice da dor até o fim e embriagar-se de alegria desmotivada de simplesmente ser, esqueça a meditação.

Afaste-se da meditação se você não tem a verdade em alta conta, se a mentira já virou café da manhã posta à mesa das relações, se mentir é um negócio lucrativo, uma espécie de alivio, se lhe confere algum tipo de atributo quimérico entre os seus, se a mentira é seu evangelho, seu manual para ser alguém especial, respeitável e amado.

Se te amam pelo que você não é, e você não quer mudar isso, fique longe da prática silenciosa, pois a meditação não tem outro objetivo se não o de revelar a verdade, a tal ponto que, se sua vida estiver alicerçada na mentira, ela irá ruir.

Fique longe da meditação caso você tenha maior apreço pela escuridão do que pela luz, se a venda que encobre seus olhos, impedindo sua visão clara e ampla, lhe é confortável ou até mesmo natural; se a cegueira interna é tomada por visão, porque a meditação colocará fim na argumentação, mesmo que ela soe lógica e razoável. Não é possível mentir para o próprio coração, e meditar é, acima de tudo, sentir.

A meditação lhe evidenciará a dificuldade em aceitar e conviver com as diferenças. Fique longe dela então, se ainda tem esperanças de controlar as pessoas e situações. Se o “diferente” incomoda, é melhor nem pensar em meditação, porque ela deixará claro como cada entidade é um milagre que não se repete e simultaneamente revelará que somos todos muito parecidos, que sentimos alegrias e tristezas, que todos aninham desejos honestos de felicidade, e que na busca pela bênção, acabamos espalhando algumas maldições. Que por mais prósperos e ricos que possamos nos tornar, não é o que temos que nos fará felizes, mas sim aquilo que somos. E isto que somos está presente em todos, pois, essencialmente, todos somos Um.

Fique longe da meditação, ela poderá destruir suas sólidas crenças tão frágeis, abalar suas belas relações maquiadas, desinfetar suas idéias, remover o desprezo pelo que é diferente, revelar todo o seu ridículo e tudo aquilo que é gloriosamente belo e comum.

Ela não lhe fará melhor que ninguém, ela te igualará. Ela não tem valor no mercado, não cria status, não tem outro objetivo se não o de revelar quem você é.

Se depois de tudo isto você ainda quiser sentar-se para meditar, não espere uma medalha reluzente por sua valentia, não espere receber flores por sua coragem em se enfrentar, mas antes, sementes para o plantio, pois através da meditação naturalmente iremos semear a paz.

Se não quiser trabalhar na construção de um mundo mais justo e pacífico, então fique longe da meditação, mas saiba que também estará longe de si mesmo.

Em benefício de todos os seres, fique perto da paz!

Vida Plena!

Ananda Joy (Diógenes Mira)

Uma questão de postura

Uma das questões mais relevantes dentro da meditação é a postura corpórea. Quando pensamos em meditação, a primeira imagem que surge é de alguém sentado de olhos fechados e pernas cruzadas, cena que, aliás, não é nada moderna. Há milhares de anos pessoas interessadas em autoconhecimento e espiritualidade sentam-se desta maneira para meditar.

Nos principais textos sobre meditação encontraremos a indicação de sentar-se em contemplação. Lê-se no Bhagavad Gita:

“Retira-se a um lugar puro, num assento simples e firme, nem alto nem baixo demais, coberto de capim kusha e uma pele de um cervo ou tigre, e um tecido de seda ou lã. E ali sentado, ereto e imóvel, com os sentidos e a mente perfeitamente regulados e a alma uni-focalizada, pratica o homem o Yoga a fim de conseguir a purificação da sua alma divina.”

Buddha, ao orientar seus discípulos, de igual maneira indicou:

“Monges, no princípio de sua prática, procurem um lugar isolado, num bosque, onde o silêncio habite. Sentem-se de pernas cruzadas, sem forçar nada e de uma forma confortável, evitem, contudo assentos luxuosos que levam à preguiça e danificam a mente. Mantenham o corpo erguido, ereto, mas sem tensão. Observem que a atenção acabará por levá-los a um relaxamento corporal e a tensão é justamente o inverso…”

Na mística do Cristo ele sugere aos apóstolos: “quando fores orar, entra no teu quarto, fecha a tua porta e ora a teu Pai em segredo.”

O Cristo não aponta uma postura específica, mas o próprio ato de orar implica uma atitude de reverência, sentados ou de joelhos, já que, se deitados, acabaríamos muito provavelmente adormecendo.

Mas foquemos nossa atenção mais especificamente no Yoga. Normatizou-se na mente do ocidental acreditar que Yoga é a execução de uma série de posturas físicas (asanas) mais ou menos complexas que terminam no sentar-se de pernas cruzadas para fazer vibrar o mantra OM, e a sua divulgação se fundamentou na propaganda de bem estar, flexibilidade e relaxamento que a prática propicia.

Asana tem tradução literal como assento, e é o terceiro membro (anga) dos Yoga Sutras de Patanjali, comumente compreendido como as diferentes maneiras de se “construir” a postura sentada de maneira confortável para a meditação formal. Firmeza e relaxamento ao mesmo tempo, o que não se refere simplesmente ao período de meditação formal (sentada, coluna ereta, estabilizada), mas também à atitude mental do aspirante, são as orientações centrais para a prática.

A postura dentro da meditação tem grande relevância com absoluta certeza, pois ela determinará a qualidade de nossa mente. Uma postura ereta e firme cria condições mentais de atenção e alerta, especialmente se ela vier acompanhada de descontração e relaxamento. Caso contrário, a tensão tende a aumentar os desconfortos físicos, afetando nossa mente, tornando-a sobremodo agitada.

Na meditação estamos evidenciando a união entre as polaridades: estabilidade versus relaxamento, buscando o confortável na prática. No entanto, precisamos compreender a questão da postura para além do corpo, pois a postura interna é extremamente relevante. Nos Yoga Sutras define-se que o Asana deve ter estas duas qualidades:

Sthira e Sukha – firme e relaxada – qualidades que permeiam todo o campo dos movimentos corporais: a firmeza, que denota força e dignidade, e o relaxamento, que é o estado de graça e receptividade. Um corpo bem posicionado resultará em uma mente posicionada na atenção. A maioria das pessoas é um tanto desleixada, desajeitada nos movimentos e isto é reflexo de uma mente desgovernada, carente de atenção. Por outro lado, a meditação possibilita esta mesma força, dignidade, graça e leveza para todo o nosso ser, para nossa vida profissional, afetiva, emocional e mental. Assim, meditar é a vivência de um estado mental que está assentado sobre estas duas qualidades, concomitantemente.

Nos variados textos sobre meditação existe a indicação de como deveria ser o assento. Tratam-se provavelmente de orientações básicas, literalmente apontando um lugar adequado para a meditação.

Eu ainda aposto na possibilidade simbólica de interpretação destas recomendações. Cristo aponta que devemos orar em nosso quarto com as portas fechadas, penso que este “quarto” não se trata de um cômodo específico da casa, e sim de nossa intimidade, fechando as portas dos sentidos, para ouvir a voz interna. Este lugar deve ser isolado e puro, e eu reconheço o coração como o aposento do espírito e o lugar mais adequado para assentar nossa atenção.

“O assento não deve ser nem muito baixo nem muito alto”. Esta indicação me leva a refletir sobre o equilíbrio na prática meditativa: manter-se a meio passo, ou seja, livre de pretensões materiais ou espirituais, harmonizando a experiência psíquica e sensorial, evitando agarrar-se a elas; mantendo nossa consciência assentada no coração, alinhada e ereta, buscando as alturas do espírito, imóvel, sem mover-se atrás dos múltiplos fenômenos, mas uni-direcionada, posicionada na observação serena de cada manifestação que surge no corpo ou na mente.

O yogue senta-se sobre a pele do feroz tigre ou do dócil veado, ambos representando a vitória do espírito sobre a natureza animal, com todos os seus impulsos, emoções, instintos e agressividade destrutiva. Através desta prática purificamos nossa alma divina, como declara Krishna a Arjuna, seu discípulo. E a alma é o nosso coração, onde registramos nossas experiências que moldarão nosso destino. Se a alma estiver pura, vazia e límpida, nosso destino se transformará, pois tal pureza é a nossa real natureza imaculada. No entanto, esta purificação só é possível dentro da contemplação, quando olhamos cada fenômeno sem gerar os venenos mentais do apego, da aversão e da ignorância, que intoxicam nossa mente e coração, mantendo nossas vidas condicionadas.

A atenção mental que dissipa os condicionamentos é dotada de vigor e tranquilidade simultaneamente, e este estado passivo-alerta não pode ser conquistado pelo esforço, mas manifestado como resultado natural da atenção. É verdadeiro desapego, um estado mental completamente livre de interesses. Apenas quando estamos mentalmente tranquilos e abertos à percepção sensorial (diferente da sensual, que guarda em si o desejo de uma satisfação) é que poderemos expressar esta graça acompanhada de dignidade.

A mente deve ser serena e atenta ao mesmo tempo, desta maneira poderemos gerar as condições internas necessárias para a abertura da visão clara. Esta é a compreensão ampla acerca das orientações sobre a postura, em sua contraparte mais sutil, com o estabelecimento de uma postura interna digna, calma e especialmente sensível.

Assim sendo, qual seria então a postura correta do Yogue diante da vida? Diante de cada desafio?

Não importando qual a situação – interna ou externa – que enfrentamos, mantemos a dignidade e a serenidade. Firmes e estáveis no SER real, descontraídos e serenos para que não se turve a visão espiritual da unidade.

Postura correta é atenção e equanimidade.

E este é o espírito da prática meditativa.

Vida Plena!

Ananda Joy (Diógenes Mira)

Disponibilidade é tudo de que você precisa!

Algumas pessoas têm a ideia de que para meditar muita coisa precisará mudar em suas vidas, de que elas terão de sofrer uma série de ajustes que fatalmente as descaracterizariam. Este temor se justifica por um conjunto de ideias equivocadas sobre a meditação e pela atuação de alguns indivíduos que entraram na onda “zen” para ganhar alguns trocados e enganar sinceros buscadores.

Aqueles que temem ser enganados ou sofrer alguma espécie de lavagem cerebral durante um transe coletivo, são apaziguados quando se sentam e são orientados apenas a contemplar sua própria respiração e aquilo que se processa dentro de si como pensamentos, sentimentos e sensações. Se alguém está lavando seu cérebro, é ele próprio, e esta purificação mental não tardará a revelar-se sobremodo positiva. Alguns pensam que para meditar seria necessário mudar de religião e passar a reverenciar e cultuar deuses esquisitos, importados do Oriente, com vários braços e cabeças. Isto também não procede: a pessoa pode sentar-se para meditar e continuar fiel a Jesus, a Buda, a Krishna, a Oxalá, ou mesmo à vida, a sua própria essência, a sua verdade mais profunda. Um ateu beneficia-se tanto quanto o mais fervoroso devoto, pois meditar não envolve culto de nenhuma espécie, mas faz brotar a fé, não em um poder externo ou alienígena, mas em si mesmo e na capacidade de manter-se centrado frente aos desafios da vida.

Alguns crêem que a meditação envolve o uso de colares “hippongas” de sementes, incensos e roupas indianas ou batas e vestidos brancos; acreditam que terão de abandonar seu modelito e demais cores da moda. Isto também é falso, pois a meditação não implica na mudança do visual externo que adotamos, mas sim na mudança da visão interna que carregamos sobre nós e sobre o mundo que nos cerca. Talvez a pessoa descubra que ela se veste de uma maneira especifica para identificar-se socialmente, para fazer parte de uma “tribo”, de um “status” ou que ela se esconde atrás das etiquetas que usa. O importante é que esta descoberta não seja incutida em sua mente por modelos externos de pensamento e ideologias propagandeadas largamente por todos os meios de comunicação, mas sim, que seja uma revelação surgida de sua própria percepção e compreensão, pois o que realmente importa na meditação está invisível aos olhos.

Alguns temem que para meditar tenham de converter-se ao vegetarianismo e a jejuns austeros, que terão de abandonar sua bisteca malpassada e suas doses diárias de refinadas e artificialmente coloridas guloseimas. Isto também não procede. Talvez alguns meditadores não concordem comigo, mas o fato é que este ajustamento não é essencialmente necessário. Na verdade, as alterações em nossos hábitos acontecem porque evidenciamos, através da observação direta e de nossa inteligência a serviço da meditação, o que é prejudicial ao nosso bem-estar geral. Se você mudar sua alimentação é porque talvez você tenha percebido que comer demais ou comer de forma irresponsável e insalubre afeta diretamente o seu estado de harmonia e pacificação e, é claro, sua saúde de um modo geral. Naturalmente brota da prática o sentimento de compaixão. Todos os seres amam a vida, protegem-na e buscam a felicidade; obviamente surgirá em nós, através da correta compreensão, o desejo de proteger a vida e auxiliar para felicidade de todos os seres a nossa volta.

Talvez algumas pessoas pensem que meditar é dificílimo, que envolve técnicas complexas e a absoluta entrega de si a um Guru barbudo enrolado num lençol branco. Porém, em verdade, nada pode haver de mais simples do que meditar. Não se exige mais do que uma inteligência mediana para observar a si mesmo com interesse. Tão simples e tão difícil, pelo menos no que se refere ao enfrentamento de nossos escorpiões internos, de nossas frustrações, medos e anseios. Com absoluta certeza, o mais difícil na meditação é o medo de ver a si mesmo e, no entanto, nada mais recompensador do que a habilidade de enfrentar as oscilações da vida munido da equanimidade e tranquilidade oriundas da prática contemplativa. Nenhum ajuste radical precisará ser adotado pelo meditador; a base da transformação através da prática meditativa é bem mais profunda do que mera imitação e ajuste, ela parte da compreensão, do conhecimento de si dentro das relações e do mergulho profundo em seu próprio universo subjetivo. Não é necessário praticamente nada para meditar, nenhum ritual, nenhum voto sagrado pela eternidade, nenhum esquema complexo de estudo teórico, não existe graduação, pós-graduação nem doutorado no ato de perceber a si mesmo. Tudo de que necessitamos para a prática é disponibilidade.

Estar disponível para aplicar-se disciplinadamente, dando continuidade ao processo, disponível para sentar-se em imobilidade e sensível ao momento presente, disponível para ver sua verdadeira face no espelho da consciência. A meditação é uma grande oportunidade. No entanto, é preciso compreender esta palavra mais profundamente, buscando sua origem e significado. Oportunidade designava a possibilidade de uma embarcação alcançar o porto; hoje entendemos oportunidade como uma chance ou ocasião favorável. A meditação é um barco, e esta embarcação pode nos levar à outra margem, ao porto seguro da felicidade e da realização plena da paz.

Uma embarcação à deriva com um comandante sem a menor noção do que faz e de como conduzir o navio, poderá ser lançada nas rochas do sofrimento ou naufragar no mar da ignorância. Meditar é saber navegar, o que não significa que não haverão tempestades, mas que poderemos vencer qualquer contratempo se estivermos firmes e atentos ao leme da perfeita equanimidade e paz.

O agora é o momento favorável, a grande chance de ser feliz! Esteja disponível à felicidade!

Vida Plena!

Ananda Joy (Diógenes Mira)

Escola filosófica de Estudo e Terapias Tantra
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